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Burnout: como identificar os sinais antes que o esgotamento se torne mais grave?

  • Foto do escritor: Flávia Gobi L. Kipper
    Flávia Gobi L. Kipper
  • 24 de jun. de 2024
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Desenvolvimento do stress crônico do burnout
Desenvolvimento do stress crônico do burnout

Muitas pessoas começam a perceber que algo não está bem quando o cansaço deixa de desaparecer depois de um fim de semana de descanso.

Aquilo que antes parecia apenas uma fase difícil passa a se tornar um estado constante de exaustão física e mental.


Na clínica, muitas pessoas que desenvolvem burnout costumam descrever uma sensação de esgotamento constante, onde realizar pequenas tarefas que antes eram habituais passa a exigir um grande esforço ou até mesmo serem evitadas, inclusive atividades que eram prazerosas como momentos de diversão, lazer, relacionamento, encontro com amigos. Tudo se torna muito desgastante e cansativo.


Antes de mais nada, é preciso esclarecer que o burnout é um processo de estresse crônico. Embora a definição clássica da OMS (CID-11) associe o Burnout especificamente ao esgotamento profissional, a sensação de "queima" física, emocional e mental pode ser derivada também de outras atividades estressantes como rotina de estudos muito intensa, cuidados com familiares que demandem cuidados intensos como bebês, crianças ou idosos, processo de imigração e adaptação a outra cultura ou o acúmulo de atividades causando uma sobrecarga. Embora este artigo trate do Burnout profissional, a descrição dos 12 estágios de desenvolvimento bem como a maioria dos 28 sintomas que você vai ver neste texto, também servem como base para o "Burnout não profissional" que é igualmente grave.


A Síndrome de Burnout (termo que vem do inglês e significa “queimar se por completo”) é definida com um estado de esgotamento físico, mental e emocional diretamente ligado à vida profissional da pessoa.


De acordo com a ISMA-BR*, em 2019 cerca de 32% dos trabalhadores brasileiros (cerca de 1 a cada 3) sofria de burnout.


Os acontecimentos estressantes dos últimos anos reforçaram esse processo: pandemia, crise financeira, aumento do endividamento pessoal, mudanças na legislação trabalhista, risco de desemprego nas “reestruturações” ou nas “reduções de custos” das empresas...


Atualmente, devido à grande incidência, vários problemas de saúde mental e transtornos vem sendo considerados normais pela população e até mesmo banalizados nas redes sociais, sendo o burnout um deles. Isso é muito perigoso pois dificulta o reconhecimento dos sintomas, levando as pessoas a procurarem ajuda só quando a situação já se agravou e a síndrome se estabeleceu por completo (daí são alguns anos de tratamento...isso mesmo, anos).


Vamos esclarecer algumas coisas fundamentais sobre o burnout...

1) Burnout não tratado adequadamente costuma evoluir para depressão profunda, muito frequentemente com pensamentos suicidas, e, dependendo da gravidade, podem ocorrer tentativas de suicídio ou suicídio de fato.


2)   Burnout não tem cura. É como se, em algum momento desse processo de desgaste intenso, o sistema entrasse em colapso e milhares de informações que o cérebro processa de repente “truncassem”, produzindo algo semelhante a um “curto-circuito” no cérebro.


3)   Burnout tem tratamento, que se realizado corretamente, traz estabilidade e qualidade de vida ao paciente, porém, via de regra é fortemente recomendado que a pessoa reveja a carreira e mude a área de atuação profissional que produziu o quadro.


4)   Identificar alguns dos sintomas (do início ou do desenvolvimento da síndrome) e procurar tratamento o mais rápido possível pode impedir o desenvolvimento da síndrome e inclusive reverter o processo de adoecimento que já estiver em curso.


5)  Nos últimos anos temos observado o aumento do número de casos de Burnout em pessoas que são empresárias, profissionais liberais, autônomas e empreendedoras, inclusive em populações mais jovens (menos de 30 anos) o que é novidade.


A síndrome de burnout não se estabelece de repente, ela leva meses e em alguns casos até mesmo anos para se desenvolver e no início alguns sintomas aparecem ocasionalmente e são passageiros. Com o desenvolvimento do quadro, os sintomas vão se intensificando e se tornado mais frequentes, gradativamente, até a síndrome se estabelecer por completo.


Como uma pessoa chega ao burnout? Vamos entender as fases desse processo.


Para dar uma ideia mais clara sobre as fases do desenvolvimento do Burnout (que também devem ser lidos como sintomas), vamos ver a lista “12 estágios do esgotamento profissional” criada pelos psicólogos Herbert Freudenberger e Gail North:


1) Compulsão em demonstrar seu próprio valor.


2) Incapacidade de se desligar do trabalho.


3) Negação das próprias necessidades (sono, alimentação, lazer etc.)


4) Fuga de conflitos (percebe que algo está errado, mas evita lidar com a situação)


5) Reinterpretação de valores pessoais (a autoestima passa a ser medida somente pelos resultados no trabalho)


6) Negação de problemas (intolerância, agressividade, sarcasmo, a pessoa nega que existam problemas no trabalho e julga os colegas que se manifestam a respeito)


7) Distanciamento da vida social


8) Mudanças estranhas de comportamento (era uma pessoa calma e se torna irritadiça/nervosa, era alegre/sociável e se torna calada, triste, por exemplo)


9) Despersonalização (não enxerga seu valor e suas necessidades e passa a não enxergar o valor e as necessidades das outras pessoas)


10) Vazio interno (para tentar amenizar o desconforto é comum a pessoa recorrer ao álcool ou outras drogas, ou desenvolver compulsões por comida, jogos, compras, sexo, por exemplo)


11) Depressão (perda do sentido da vida, desânimo, apatia, exaustão)


12) Burnout (colapso mental e físico muitas vezes acompanhados de pensamentos suicidas)


Vale lembrar que algumas pessoas passam por todas essas fases, outras não e que as fases podem aparecer fora dessa ordem no desenvolvimento do quadro.


Quais são os sintomas mais frequentes de burnout?


Para facilitar a identificação, após larga pesquisa, consegui listar 28 sintomas frequentes em quadros de burnout, lembrando que normalmente a pessoa não apresenta todos os sintomas, mas sim alguns ou vários deles, sendo uns mais frequentes do que outros:

  • Cansaço excessivo, físico e mental.

  • Fadiga.

  • Ausências no trabalho.

  • Dor de cabeça frequente ou crises de enxaqueca.

  • Alterações no apetite.

  • Alterações repentinas de humor.

  • Agressividade/irritabilidade.

  • Ansiedade.

  • Alteração nos batimentos cardíacos (palpitação, taquicardia).

  • Sudorese (transpiração em abundância).

  • Insônia.

  • Dificuldades de concentração.

  • Lapsos de memória.

  • Rebaixamento da autoestima.

  • Sentimentos de incompetência, derrota, fracasso, insegurança e desesperança.

  • Negatividade constante (pessimismo).

  • Pensamentos suicidas.

  • Comportamentos de alto risco.

  • Isolamento social.

  • Desânimo e apatia.

  • Depressão.

  • Disfunções sexuais.

  • Alterações menstruais.

  • Imunodeficiência (adoecimento frequente devido ao rebaixamento do sistema imunológico).

  • Pressão alta.

  • Dores musculares ou osteomusculares.

  • Crises de asma.

  • Problemas gastrointestinais

Quando procurar ajuda psicológica para burnout?


Alguns sinais de alerta:


  • quando o descanso já não resolve o cansaço

  • quando o trabalho começa a afetar sua saúde física, mental ou emocional

  • quando surge a sensação de que as coisas perderam o sentido ou que você perdeu a motivação


A psicoterapia pode te ajudar a compreender as causas desse esgotamento, reconstruir limites e encontrar formas mais saudáveis de se relacionar com o trabalho e consigo mesmo. No ranking mundial de profissões com maior índice de burnout temos: agentes de segurança (policiais, seguranças, vigilantes e outros), controladores de voo, motoristas de ônibus, executivos, atendentes de telemarketing, profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, cuidadores...), bancários, professores e jornalistas.


Mas a doença não afeta somente profissionais destas áreas sendo encontradas também em profissionais de todas as áreas que exigem intenso relacionamento interpessoal.


Embora eu não tenha encontrado nenhum estudo científico comprovando, existem evidências de que no Brasil as mulheres costumam ser mais afetadas devido à diferença nas condições de trabalho e salários (em relação aos homens na mesma carreira) e também devido ao acúmulo de funções produzido pela dupla jornada.


Existe algo que torne a pessoa mais propensa a desenvolver burnout?


Hoje, após anos de estudos e tratamentos de pacientes com burnout, sabemos que existem dois tipos de estrutura psicológica (ou padrões), que predispõe a pessoa a desenvolver essa síndrome:


- perfeccionismo: busca pela perfeição, intolerância aos erros (seus ou dos outros), autocobrança excessiva e padrões de exigência inatingíveis (nenhum trabalho realizado está bom o bastante);


- necessidade de reconhecimento: essas pessoas têm a necessidade de se sentirem valorizadas e reconhecidas pelo que fazem, buscando aquela posição onde se sentem indispensáveis.


Isso não significa que uma pessoa que não carregue algum desses padrões nunca vá desenvolver burnout, mas sim que a maioria das pessoas que o desenvolvem possui algum desses padrões ou os dois juntos.


Precisamos estabelecer limites saudáveis e também sempre estar atentos a práticas abusivas por parte das empresas como jornadas de trabalho abusivas, metas inatingíveis, desvios de função, estruturas assediantes e até mesmo a prática de assédio moral/sexual, todos grandes produtores de adoecimento psíquico em trabalhadores.


Espero que este artigo tenha sido útil. Se ao longo da leitura você se identificou com alguns dos sinais descritos neste artigo, é importante lembrar que o burnout não surge de forma repentina. Na maioria das vezes, ele se desenvolve aos poucos, enquanto a pessoa continua tentando dar conta de tudo sozinha, das exigências do trabalho, das responsabilidades do dia a dia e das próprias expectativas.


Muitas pessoas passam muito tempo acreditando que precisam apenas ser mais fortes, se esforçar mais ou aguentar mais um pouco e não procuram a ajuda adequada para lidar com o mal estar. Por isso não é raro que o sofrimento só seja reconhecido quando o processo de esgotamento já está bastante avançado.


A psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender melhor o que está acontecendo, reconhecer os limites do corpo e da mente e encontrar formas mais saudáveis de lidar com as pressões da vida profissional e pessoal.


Se você sente que pode estar passando por algo parecido e gostaria de conversar sobre isso com mais calma, procurar ajuda psicológica pode ser um primeiro passo importante.


Se desejar agendar uma consulta comigo, você pode entrar em contato pelo WhatsApp clicando no botão abaixo. Será um prazer poder te acompanhar nesse processo.


Se ao ler este artigo você se lembrou de alguém que pode estar passando por algo semelhante, compartilhar este material também pode ser uma forma de cuidado.


 *ISMA-BR: International Stress Management Association

 Fontes:





 
 
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