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O Diabo Veste Prada: quando a adaptação ao mundo afasta uma mulher de si mesma.

  • Foto do escritor: Flávia Gobi L. Kipper
    Flávia Gobi L. Kipper
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

O Diabo Veste Prada (2006) costuma ser lembrado como um filme sobre moda, carreira e ambição. Mas talvez ele fale sobre algo ainda mais profundo: a forma como muitas mulheres acabam se afastando de si mesmas ao tentar corresponder às expectativas do mundo para conquistar o seu lugar ao sol.


À primeira vista, o universo do filme parece profundamente feminino. Moda, beleza, glamour, roupas, maquiagem, estética e revistas voltadas para mulheres ocupam o centro da narrativa. No entanto, por trás dessa aparência, existe uma estrutura organizada por valores bastante conhecidos em uma lógica patriarcal: desempenho, perfeccionismo, produtividade, controle, competitividade e sacrifício da vida pessoal em nome do sucesso.


O feminino aparece como imagem. O funcionamento daquele mundo, porém, exige outra coisa.


É nesse contexto que surge Miranda Priestly.


Miranda se tornou um símbolo de poder feminino contemporâneo. Ela ocupa um lugar historicamente reservado aos homens: autoridade, influência, reconhecimento, status e excelência profissional. É admirada, temida e respeitada. Mas esse lugar parece ter exigido um preço psíquico muito alto.


Miranda encarna um modelo de sucesso sustentado por características tradicionalmente associadas ao masculino dentro de uma estrutura patriarcal: controle, competitividade, racionalidade extrema, dureza emocional, perfeccionismo, eficiência e distanciamento afetivo.


Não dá para olhar para Miranda sem lembrar da imagem arquetípica da deusa grega Atena.


Ela não apenas trabalha muito. Ela parece existir inteiramente para aquela função.

E o filme vai mostrando, gradativamente, o custo disso.


Miranda está passando pelo segundo divórcio. Suas relações afetivas fracassam repetidamente. A maternidade aparece distante, quase periférica. As filhas surgem em poucos momentos da narrativa, enquanto a vida emocional da personagem é comprimida pelas exigências constantes do trabalho.


Gradualmente, fica claro que o preço para conquistar e sustentar todo esse poder foi um processo de desconexão profunda de si mesma, de dimensões mais espontâneas e relacionais da experiência feminina.


E existe algo muito simbólico nisso: Miranda domina justamente um universo associado ao feminino.


Mas esse feminino aparece transformado em produto, imagem e performance. Beleza, desejo, corpo e feminilidade passam a ser administrados dentro de uma lógica de mercado, excelência e poder.


O feminino deixa de ser experiência subjetiva e se torna algo a ser produzido, controlado e consumido.


É dentro desse campo psíquico que Andy Sachs entra.


Andy chega ao filme como uma jovem recém-formada, aparentemente distante daquele universo. Seu objetivo inicial é simples: permanecer um ano no emprego para fortalecer o currículo e depois seguir carreira no jornalismo.

Mas, gradualmente, ela é absorvida por aquele sistema.


A transformação acontece de maneira quase imperceptível. Ela começa mudando a aparência, reorganizando prioridades, adaptando hábitos e se afastando de antigos vínculos.


Começa então a incorporar valores que antes lhe pareciam estranhos.

O que inicialmente era apenas um emprego vai se tornando uma reorganização inteira da própria identidade.


E talvez seja justamente aí que o filme se torna tão interessante simbolicamente.

Andy parece viver algo muito próximo do arquétipo de Perséfone.


Não necessariamente no sentido literal da filha ou da esposa, mas na dificuldade de reconhecer o próprio desejo.


Perséfone frequentemente representa uma identidade que ainda não se constituiu plenamente. Uma mulher que se adapta, absorve expectativas e passa a viver segundo desejos que muitas vezes não nasceram dela.


E isso aparece de forma muito clara em Andy.

Ela passa a se orientar por uma imagem de sucesso, reconhecimento e pertencimento.


Aos poucos, deixa de perguntar a si mesma:

“o que eu quero?”


E começa a se orientar por outra lógica:

“o que é valorizado aqui?”“o que eu preciso me tornar para ser reconhecida?”“como eu preciso performar para pertencer?”


Ela entra profundamente naquele universo, se relaciona com pessoas daquele meio, passa a viver segundo expectativas externas, principalmente a busca pela aprovação de Miranda, enquanto perde contato com:

  • seus valores originais;

  • seus vínculos;

  • sua espontaneidade;

  • seus afetos;

  • e, principalmente, consigo mesma.


O mais interessante é que no decorrer do filme, Miranda vai aos poucos deixando de ser apenas uma chefe difícil e se transformando em uma espécie de destino psíquico possível.


Uma imagem do que pode acontecer quando a identidade passa a ser construída inteiramente em torno da performance, do reconhecimento e da adaptação às supostas exigências do mundo.


E talvez seja justamente isso que Andy percebe no final do filme. Não apenas que aquele trabalho não fazia mais sentido para ela...


Mas que toda essa dinâmica estava induzindo-a a se transformar em alguém que ela não queria ser.


Talvez seja por isso que O Diabo Veste Prada continue tocando tantas mulheres, porque ele abre um questionamento que muitas de nós fazemos em determinado momento da vida:


“quando exatamente eu saí do meu caminho e comecei a viver uma vida que não era mais a minha?”





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